Hoje em dia, não se encontra, com facilidade, jovens dispostos a assumir um compromisso sério com uma garota, e muito menos a ir pedir permissão aos temíveis responsáveis da donzela. Já eu faço parte do que restou da classe erudito-apaixonada que ainda se atreve colocar em jogo um aglomerado de emoções e encarar o medo de um “não”, ao desafiar aqueles que, tão veementemente, alimentaram e sustentaram (não somente no aspecto físico) a eterna “garotinha do papai”. Este seria, para mim, o desafio culminante em um período incendiado pela contínua busca da camuflagem, banal no amor entre adolescentes.
Esta temporada de início de namoro foi adoçada pelo gosto do proibido, pela sensação de aventura, que excitam a alma adolescente. As pequenas aventuras eram o bastante para nossos corpos começarem a dançar involuntariamente, devido aos espasmos que se harmonizavam com as contrações musculares nos momentos de deleite dos lábios. Beijávamos deliciando o sabor do amor que nós havíamos construído proibido; abraçávamos sentindo o ardor da paixão e o calor da tensão, esperando que aquele momento não fosse uma imagem de contemplação para quem passeava pelas proximidades.
Porém, numa noite de domingo daquele ano de 2007, próxima à transição do quarto para o quinto mês, o desejo de invisibilidade foi frustrado por quem temíamos com mais intensidade: logo depois de vinte e três dias e algumas horas desde o primeiro beijo, estávamos no mesmo local onde houve o nosso primeiro encontro, quando, de repente, um carro, como se estivesse movido pela raiva, corta os ventos da rua paralela; reconheci e simultaneamente um frio subiu dos pés à cabeça: - Amor, é o nosso reverendo. Éramos cientes que nossos líderes religiosos não apoiavam um namoro refugiado tão somente na paixão, exigiam de nós um amor burocrático e cheio de processos para que ele se tornasse realidade; talvez porque, diferentemente de mim e da minha amada, eles não viviam e, portanto, não sabiam com exatidão de como era forte o que nos movia. Ao chegar próximo, o carro pareceu esquecer-se da veemência com a qual vinha trafegando, era a certeza que algo desagradável iríamos ouvir. E assim foi, depois de uma rápida prosa com a conjugue do sacerdote. Ela tentou transformar aquele momento desconfortável no mais ameno possível e nós nos fizemos farsas de nós mesmos ao aparentarmos brandos.
Eu, um garoto reconhecido pela retidão e bom caráter, e a minha amada Marcela, figura viva da linda donzela, havíamos sido vítimas de uma das mais antigas ridicularidades humanas, a fofoca. Ainda naquela noite, um pouco mais tarde, fui alvo de olhares sedentos em olhos salientes que só esperavam a minha chegada cabisbaixa, mas não viram o que desejavam, cheguei como se não houvesse, devorando-me por dentro, o calor da tensão e preferi tremer a alma que o corpo.
Percebi que a hora do desafio culminante estava próxima. Depois de tantos frios na barriga, desafiar a timidez e a incerteza de êxito aparentava ser o que faltava; teria agora que, como um clássico apaixonado, pedir o apoio dos pais da senhorita minha amada que ainda nem havia chegado aos quinze anos. Após exato um mês desde o primeiro beijo, minha amada era a debutante do dia e fiz-me presente na sua festa, abrilhantada com amigos e parentes. Era o dia e o momento propício para que a razão matriz de todas as camuflagens fosse extinta.
Que aniversário! Que festa! Que suspense! Noite de domingo, parentes à mesa, amigos rindo e se divertindo com os papos que só adolescentes entendem; alguém veio me comunicar que o momento era chegado, era a minha vez de ser uma personagem naquela festa. Com minhas mãos tremendo em ritmo com os pés e o suor clareando o rosto que eu queria esconder, eu, o menino de apenas dezesseis anos, banhei-me de uma ousadia adulta e formalmente, como pede a burocracia familiar e religiosa, solicitei o apoio dos pais da amada para um namoro constituído por uma paixão antiga e por uma paixão conquistada. Impetrei, ali, uma grande glória e graça. Dando as mãos, eu e minha amada Marcela saímos com sensação de imunidade às censuras. Já nos beijávamos à vontade, só não havia mais o gosto do proibido, mas saboreávamos o sabor de um amor forte, que encarou desafios e sacrificou algumas vontades, no afã de ser um amor incensurável. O frio na barriga ainda era constante, oriundo do prazer em dizer para a amada: Eu tenho você e você a mim, nada agora nos impede e fomos nós que conseguimos esta graça. Foi tudo por amor.
Muito bom,
ResponderExcluirSerá que podes substituir o termo pastor?
Não sei, mas ficaria mais estético,
E se distanciaria de evidencias obvias,
Volto a afirmar que está muito bom,
Mas deixa isso mais complicado ai moss,
Rsrsrrs,
Um abraço Ferraz.
Apesar de que numa parte do texto eu fiz referência à "líderes religiosos", eu preferi, como se trata de uma narrativa do cotidiano sobre uma experiência minha, expor que de tipo crença eu sigo, revelando que tipo de líder religioso era o meu. Mas é uma sugestão válida; admito que seria melhor esteticamentre dizendo; porém, quando se trata de estética, ainda mais numa produção tão individual, as colocações são muito relativas, pois o belo pode ser feio e o feio pode ser belo. heheheee...
ResponderExcluirObrigado pela sugestão. Realmente cheguei a pensar em que você está dizendo agora, Israel, mas temi que o professor não olhasse com bons olhos, pois eu tinha incerteza sobre que tipo de texto o professor pediu.
Abraços!
Bem, o que realmente me chamou a atenção foi seu estilo: nem parece um "rapaz de vinte e poucos anos"... A impressão que tive foi de um parnasiano, romântico, alguém de priscas eras, não um pós-moderno aluno de Comunicação; mas isso não tira o mérito da qualidade de sua narrativa, foi apenas uma surpresa.
ResponderExcluirObrigado, professor Dr. Marcus. É... talvez eu tenha descoberto o meu estilo, mas não quero ficar limitado a ele. hehehee... Da próxima tentarei que saia de mim algo mais pós-moderno. hihihih.
ResponderExcluirAh! 18 anos e alguns meses só, nada mais. hehehehe