Cidade pequena. Sol
quente. Monotonia. Ruas desérticas. Uma temporada de propagandas, campanhas, discussões... as esquinas começam a ser os pontos mais visitados pelas pessoas e a cidade monótona chega à época mais frenética dentre quatro anos. Candidatos são lançados, tornados ídolos, deuses para alguns fanáticos; equipes são formadas e pessoas comuns tornam-se protagonistas de uma estação inquietada pela aglomeração de ideologias.
Uma dessas pessoas protagonizadas foi o fotógrafo mais conhecido e estimado naquela cidade do interior baiano. Ele, sendo conhecedor da corrupção oriunda da busca da vitória eleitoral, dedicou-se, voluntariamente, a fiscalizar e registrar toda e qualquer tentativa injusta de conquista de votos, por parte do grupo político adversário.
Durante a campanha, a certeza de vitória, na equipe política que já estava no poder, a qual o fotógrafo fazia parte, crescia e a espera maior era sobre o dia da eleição, certos que iriam comemorar. Enquanto isso, o fotógrafo trabalhava dia e noite, geralmente a pé, escondendo-se e se arriscando no intuito de flagrar alguma infração. Foi ameaçado, correu de tiros, colocou em risco sua profissão, mas permaneceu na postura, paciente, sábio, paladino de sua ideologia política.
Dia 3 de outubro de 2004. Para a maioria apática da sociedade, aquele seria apenas mais um dia ensolarado, com um calor insuportável, comum naquela cidade monótona, que, por alguma razão qualquer, estaria movimentada. Os engajados na causa político-futurista, no entanto, acordaram encarando o dia como o mais importante dos próximos quatro anos, anos que mudariam o rumo daquela pequena cidade. O fotógrafo não acordou, nem sequer dormiu. Havia virado a noite que antecedia o dia da eleição, procurando o que não deixar acontecer.
O dia nunca foi tão dividido. Como sempre em três partes, mas em três partes mais intensas que nunca: antes do meio-dia, depois do meio-dia, após as dezoito horas... não!... sim após a contagem dos votos. Antes de o sol chegar ao centro do céu, uma cidade concentrada em uma única praça, localizada próxima ao prédio que amparava o maior número de eleitores. Quando o sol começava a se inclinar ao oeste, a praça continuava a abrigar a quase totalidade da urbe; uma praça amarelada pelas camisas que representavam o grupo político para o qual o fotógrafo colaborava. Neste instante, a parte avermelhada, que contrastava com a cor predominante, começou a diminuir, sentia que o que parecia, durante a campanha, iria se firmar após algumas horas.
Começo da apuração dos votos. Pessoas se espremiam às portas dos prédios querendo saber alguma novidade. Os amarelados já comemoravam o que parecia. O fotógrafo, trancado num estúdio, gravava a música da vitória. Os avermelhados com a face caída, de repente derrubaram o semblante dos amarelos. “Vencemos! Vencemos!”, gritava um senhor, vindo correndo do interior do prédio. Trancado estava, trancado ficou; já não era preciso a música que embalaria a passeata vitoriosa. O que parecia não se firmou, o trabalho de toda uma campanha foi sentido como inútil.
Perdeu-se a eleição. A discussão era agora: “como?”. As explicações poderiam vir das roupas vermelhas que apareceram por baixo das amarelas, logo após o resultado. Mas isto adiantaria mais em nada.
E o fotógrafo... no que deu toda aquela fiscalização?
Ele tinha em mão, sim, alguns materiais que poderiam comprometer a decisão nas urnas. Era a chance de se consagrar no meio político e social; poderia se tornar o herói de toda uma parte ideológica da cidade. Uma façanha, grande proeza, ele havia filmado, com uma câmara escondida, um depoimento de um amigo, que o confessou ter recebido, do grupo adversário ao do fotógrafo, dinheiro e promessas em troca de voto e favores políticos; o que bastava para condenar o candidato vitorioso nas urnas.
O caso foi levado a julgamento. No tribunal, em outra cidade, o candidato que havia perdido a eleição apresentou o cidadão, flagrado pela câmera do fotógrafo, como testemunha. Ao chamá-lo, não apareceu, o réu sentiu-se numa situação agradável; o advogado de acusação se levantou: “Meritíssima, temos aqui em vídeo a explicação do não comparecimento da testemunha.” Réu assustado, compreendia que estava numa situação desagradável. Vídeo assistido, lados com diferentes semblantes. O veredito ficou para outro dia.
Na cidade dos envolvidos no processo, a notícia chegou de maneira a surpreender a população. O futuro administrativo ainda estava indefinido, mesmo após a eleição.
O fotógrafo, mais do que nunca, sentindo-se proveitoso, com méritos. Mas nada ainda definido.
Dia do veredito. Com R$ 600.000,00 em mão, a juíza não tinha dúvida na sua decisão. Argumentou que as provas apresentadas, inclusive o vídeo, não eram o bastante para condenar o réu.
Trabalho frustrado e uma amizade em risco como muitas nesta época, outras já destruídas; o fotógrafo havia viajado e lá foi surpreendido pelo amigo que ele havia filmado camufladamente. O rapaz, furioso, abriu brutalmente a porta do ponto comercial em que o fotógrafo estava sozinho, no intuito de espancá-lo. Um discurso inteligente do fotógrafo fez com que o rapaz se acalmasse e não destruísse aquela amizade.
Perdeu-se a eleição. O julgamento não acabou como se queria. O fotógrafo se viu inimigo de muitos e sem o reconhecimento merecido do grupo que ele ajudou. Vítima, junto com a sociedade, da falta de ética e da corrupção. Pelo menos sobreviveu.
